” – Passa a bola, Maradona”. Frase recorrente no meu grupetín de amigos argentinos (eles falam a frase em Português mesmo, o que por si só já é realmente engraçado), que quer dizer: “Passa o baseadinho, companheiro, não monopoliza a pelota porque todos querem jogar, se divertir nessa marotagem”.
E por que todos querem jogar? (pra quem não sabe, isto é didática): Porque é bom jogar uma pelada, é agradável descontrair a mente e abrir a gaiola para a criança com asas que vive em nós. É bom desopilar, brincar com outros seres da nossa espécie e viver momentos em equipe, permitir algo de lúdico em nossa rotina robótica de bicho – grilo ou não – de cidade. E, tcharam!, o mais genial de tudo isso é que: sim, é possível se entreter com uma pelada (rs) e chegar a ser um humanus nusconformis, e fazer o que fazem os todas as pessoas honestas costumam fazer em suas rotinas quotidianas do dia-a-dia da rotina diária e quotidiana do dia-a-dia diário rotinero : trabalhar, trazer o leite das crianças, não matar ninguém, não extraviar milhões dos cofres públicos, almoçar domingo com a família, ter complexo de édipo, manter algo de instinto, manter alguns amigos, um amor, enfim. Coisas que não nos fazem ir pra cadeia. E, nas horas vagas, por que não, um futebolzinho, pô.
Com a maconha é assim, por mais boluda e jardimdeinfântica que lhes soe a analogia. E, antes que algum esquentadinho já role com fúria o mouse pra deixar um comentário indignado dizendo que o futebol não pode ser comparado com cannabis porque é esporte e faz bem à saúde, eu afirmo que faz mal à saúde, visto que meu concubino, jogando um partidito inocente, já quase quebrou um dedo num golpe tipo rugby e volta sempre com as costas parecendo um caju e gemendo de dor tal qual um senhor de idade; minha irmã foi goleira no colégio e rompeu os ligamentos do joelho, e tantas outras tragédias que o futebol pode provocar. Fora que, pra quem fuma, é quase impossível correr um campo inteiro sem sentir a morte mais perto pelos breves segundos em que não conseguem inspirar nem expirar nada. Isso de fazer bem é muitíssimo relativo, estimados hermanos. Laboratórios dizem que muita coisa vai te trazer benefícios e a Igreja Universal do Reino de Deus também.
Antes de nos metermos pelo denso rio dos termos jurídicos, é melhor falar de certas coisas. Vamos falar do tema a plenos pulmões, e vamos mesmo, porque não é todo o mundo que sabe o que é isso de puxar fumo, e também pelos que chamam pejorativissimamente os que fumam de “perejiles” (em português: salsinha. esse mesmo, o tempero), e isso me tira do sério, tanta gente achando uma coisa sem saber porque acha e sendo mais brutos que ogros, porque achar não é saber, e a cegueira coletiva me deixa, com o perdão do trocadilho, cega de ódio. Eu sei que muita tia, mãe, ex-colega-do-jardim-que-só-bebe-suco, etc, vai ler isto. E é pra essas pessoas que eu quero contar como funciona essa coisa, que não só não é um bicho de sete cabeças, como mais parece um simpático filhote de labrador, já veremos por que.
Porque, não, você não precisa ficar idiota se fumar um baseado. Muito menos ser um para fazê-lo. Não, você não precisa dormir imediatamente, tampouco. E, finalmente, não: você não precisa gostar.
Mas, se gostar, fique sabendo que você não representa nenhum risco ao seu vizinho por desfrutar da yerba buena. Não, pessoal, eu não fumo e vejo um OVNI se a luz da sinaleira está piscando, não saio peladona no centro da cidade, juro que não me comporto como uma lunática. A maconha é tão inocente que nem sequer me dá coragem pra pegar um ônibus sozinha de madrugada, o que afirma que, vejam só, tampouco me deixa inconseqüente ou tresloucada. Não passei a ver o mundo em technicolor depois do meu primeiro cigarro de maconha (não confundamos as drogas). Não, fumar maconha não se trata disso. “Quero mais!”, que nem o guri propaganda do Tang. Se trata de abrir as portas da percepção, tal qual o Jim, embora este tenha se passado e acabou abrindo o telhado e o chão também. Mas, pra quem nunca experimentou, saibam que, a cannabis, para muitos, funciona como uma lâmpada na mente, que põe a questionar e a desfrutar cada minuto, e o massa é que o minuto de quem fuma costuma ser mais longo (rá!). A maconha não me relaxa porque me relaxa e “ai, que sem graça isso, não entendo como podes gostar disto, me dá sono e me deixa bobo/a” pode dizer a amiga. Eis que eu direi à ela: “Tudo bem que não me entendas, mas que bom que me aceites.” Se a maconha me relaxa é porque me faz refletir – ou viajar, como quiserem – aliás, viajar é um termo ótimo, visto que as viagens proporcionam riqueza de experiências, banho de cultura, renovação da mente e alma, entrosamento com outros seres humanos, e todos nós sabemos que viajar é a segunda melhor coisa que um humano pode fazer. Fumo um e penso, penso muito. Não na velocidade galopante em que sobe o dólar, nem no desastre que foi o time do Maradona jogando com o Brasil sábado passado (inenarrável o prazer de ter assistido o jogo entre argentinos e no país deles, dá licença que este texto é em Português e dá vontade mesmo de rir do Maradona. Meu pai disse que ele parecia uma prostituta velha com a maquiagem borrada rsrs), eu penso e medito sobre o que posso fazer pra ser alguém melhor no mundo, logo: eu penso em mim. Nas minhas relações com outros humanos, na minha vida, I me mine, eueueu, já sei, mas é assim. A gente tem que pensar na gente pramodiagente ser feliz. Simples assim, tá batido mas é: a mudança começa em cada um de nós. Então faça a sua parte e comece a desatar seus próprios nós, porque senão a bagunça fica indecifrável demais. Desatar nós não necessariamente tem a ver com ir à terapia, nem à academia, nem fumar um *canário. Tem a ver com aceitar o outro, o diferente e o semelhante, o próximo da fila, aprender que amor se dá sem julgar. Assim somos nós com o novo, assim somos nós com o desconhecido: “afasto o que não conheço”, diria John Gilbert, e não preciso estar em Sampa pra saber disso. Experimente botar todo mundo pra pensar, e teremos um mundo, não esse lixão no meio da Statusfera. A maconha não faz o que as boletinhas anti-depressivas fazem (estas sim são perigosas, e com elas é que deveríamos nos preocupar), mas vou deixar pros mais interessados que procurem na Internet ou em suas enciclopédias mais info sobre o efeito da erva, ou que fume um e tire a dúvida. Sou mesmo uma safada, eu sei, mas nunca diga “deste cigarro não fumarei”.
Iniciemos, pois, o rafting pelo rio (barbaridade) da sentença que levou a Corte Suprema da Argentina à despenalização da cannabis para consumo próprio: (sim, eu li as oitenta páginas da sentença)
(onde houver um asterisco significa que lá embaixo haverá um glossário de sinônimos para “cigarro de marihuana” em porteñês, vejam que simpático)
Cinco guris caminhando por uma rua de Rosario (interior da Argentina) portando três *porritos. Equações de baseado por cabeça à parte, o que temos é um caso que foi parar na Corte porque, graças a Jah, ainda existe gente sensata até no Poder, que coisa mais adorável.
Queriam condenar os meninos a muito tempo no xadrez. Eis que o iluminado juiz Carlos Fayt parou, pensou (eu tô dizendo que esse negócio de pensar é importante) e disse: mas peraí, companheiros (o companheiros é por minha conta): que mal mesmo pode nos oferecer um usuário de maconha? Precisamos realmente perder tanto tempo com essa gente? Por que não os deixamos em paz e começamos a nos preocupar com o que realmente importa? Elementar meu caro Marley, bastou uma breve análise.
A Argentina é o segundo país em consumo de cannabis da América Latina (o primeiro é o Chile), e olha que o Brasil é grande… Os argentinos são os primeiros em consumo de cocaína, e olha que o Brasil é grande (!). Dá pra notar que o pessoal é chegado numa droguinha nesta terra de Diego Maradroga. Ainda bem que a Corte entendeu que isso dificilmente vai mudar. A jurisprudência mostrou, depois de tantos casos em que houve penalização no caso de consumo não ajudou em nada a diminuir o tráfico nem o consumo, enquanto ambos só aumentam, getting higher and higher.O buraco é mais embaixo, a gente sabe bem.
Estamos na América Latina, isto aqui não é Amsterdam e ainda não posso pedir pra moça do mercadinho “por favor, me vê um Marlboro box e um desses marroquinos que tens aí ao lado dos chiclés”. Mas já é alguma coisa, esta sentença é um baita avanço. Um passo importante não só para os maconheiros, e sim, para a Humanidade. Grande coisa pisar na Lua, diria eu. Sim, eu, porque não é todo mundo que se atreveria a dizer que a despenalização de uma droga tem a ver com evolução da Humanidade. Mas tem, eu juro: a sentença nos diz, indiretamente, que a luz no fim do túnel agora pelo menos pisca. Que essa coisa de punir sem saber porque pune anda com as patas meio curtas.
Na Argentina, até o mês passado, o cidadão tinha que fechar a janela, acender incenso e o caralho a quatro pra poder fumar seu *caño em paz ou para plantar sua kaya, a menos que você tivesse certeza absoluta de que seus vizinhos não o denunciariam.
Pois escancaremos as janelas e venezianas, muchachos! A partir de agora, se o macanudo vizinho não simpatizar com o perfume de seu *fasín, então ele que acenda seu incenso e feche sua janela, porque a partir de agora o fato de ele antipatizar com a maconha é um problema dele, e não seu.
E aqui está o centro da questão, que na realidade foi a origem da sentença de 26 de agosto:
(em espanhol mesmo, vamos fazer uma forcinha, ¡ hermanos !)
“(…) Cabe tener presente que una de las pautas básicas sobre la que se construyó todo el andamiaje institucional que impulsó a la Convención Constituyente de 1994 fue el de incorporar a los tratados internacionales sobre derechos humanos como un orden equiparado a la Constitución Nacional misma (artículo 75, inc. 22). Así la reforma constitucional de 1994 la importancia del sistema internacional protección de los derechos humanos y no se atuvo al principio de soberanía ilimitada de las naciones (considerandos 18 y 19 in re “Mazzeo”, Fallos: 330:3248).”
Sou eu, ou isso é mais bonito que Walt Whitman?
Proteger os direitos humanos ao invés de dar bola pra soberania do Estado? É poesia.
Li isso, me senti contente pelos humanos e seus direitos respeitados. Tipo, ainda se pensa em direitos humanos, wow! E é dessa luz no fim do túnel que eu falo, ela pisca e nos avisa que, ainda podemos esperar, dias melhores virão.
A sentença diz também que o fato de o vivente fumar não afeta a pretendida saúde pública. Bingo! Goste você ou não de um baseado, fato é que não oferecemos risco e o que a pessoa faz dentro da sua própria casa é assunto seu e só seu. O pior risco que podemos oferecer é perder as chaves de casa, rir às pampas, tossir no bus e gerar conversaçoes filosóficas. Not bad, hã. Mas tem gente que não gosta de ver ninguém rindo nem pensando muito e que acha que perder chaves é um absurdo. Então preferem chamar a gente de perejil. Tomo como elogio, já que é um tempero, e o que seria da vida afinal se não fosse um temperinho? Só me resta mesmo ver aos reacionários como personagens de um filme de terror brasileiro: é tão tosco que vira comédia. Aqui está clara a minha indignação para com essa gente que só diz que não, que não se pode e que não se deve. Não cabe a ninguém julgar a pessoa que fuma um *churro simplesmente porque lhe apetece fazê-lo. Eu fumo, gosto e escrevo, e esse é o problema: os que gostam das letras acham que podem mudar o mundo com elas, mas paciência, foi o que me tocou, já que nao sei tocar violão nem cantar bonito.
Mais um belo poema retirado da sentença:
Con relación a tal derecho y su vinculación con el principio de “autonomía personal”, a nivel interamericano se ha señalado que “el desenvolvimiento del ser humano no queda sujeto a las iniciativas y cuidados del poder público. Bajo una perspectiva general, aquél posee, retiene y desarrolla, en términos más o menos amplios, la capacidad de conducir su vida, resolver sobre la mejor forma de hacerlo, valerse de medios e instrumentos para este fin, seleccionados y utilizados con autonomía —que es prenda de madurez y condición de libertad e incluso resistir o rechazar en forma legítima la injerencia indebida y las agresiones que se le dirigen. Esto exalta la idea de autonomía y desecha tentaciones opresoras, que pudieran ocultarse bajo un supuesto afán de beneficiar al sujeto, ocultarse bajo un supuesto afán de beneficiar al sujeto, establecer su conveniencia y anticipar o iluminar (!!) sus decisiones. (CIDH en el caso Ximenes Lopes vs. Brasil (!!!!!!), del 4 de julio de 2006, parágrafo 10 del voto del Juez Sergio García Ramírez).”
Nao é incrível?!
Outro dado que sinaliza: fizeram uma análise comparativa de 2001 a 2005 que mostra que houve um aumento de 100% das mulheres no consumo da erva contra 50% de homens. Por favor, não vão pensar que sou uma feminista ferrenha nem nada, mas pra mim isto é um sinal de mudança tipo The Times They Are A Changing: muitas mulheres que antes só fumavam tabaco, porque maconha era coisa de homem, de hippie louco, mendigo e sujo, hoje também querem fumar um e jogar bola.
Tá longo o texto, eu sei. Mas se a Corte, que está composta de 99% de pessoas que não fumam, pode escrever 80 páginas falando do tema, eu que tenho o tema presente na minha vida me dou o direito a ultrapassar os 5000 toques que me pediram e, eu escrevo tudo até a última ponta.
E baaaasta de trocadilhos infames.
Cancherário: (a próxima vez que visitares a Argentina já vais estar canchero hablando del faso)
· porro (aqui nao tem no feminino, nem adianta querer tirar sarro)
· faso
· fasín – derivado de faso
· churro (!) eu sabia que o Chaves era chegado
· caño
· canário – derivado de caño
· finito (no caso de ser fino, justamente)
· cigarrillo de marihuana (o mais ousado)