from her curls

Novembro 30, 2009

Las guitarras voladoras de Charly Papádelrock García

Já é sabido que o argentino é um ser rockandrollero por natureza. Parece que eles já nascem de barba crescida, curtindo guitarras e esses cabelos de raros peinados nuevos.
Sempre achei o argentino um eterno adolescente, visto que saltam como púberes num show e qualquer banda tocando é motivo suficiente para tornar-se um evento de proporções woodstóckicas. Eles vivem do passado, respiram saudades em tudo e de tudo. Cultivam amizades de infância como quem vai ao dentista, idolatram ídolos de décadas longínquas, e ainda por cima tem o lance das moedas pra poder subir num ônibus. E os próprios ônibus nos remetem a outros carnavais, já que mais parecem bondinhos antigos. Nostalgia é o que define os hermanos, e eles têm o tango – e o Maradona – pra provar.
Mas eu aqui não tenho que provar nada, é só o que eu penso mesmo, são as minhas portas argentinas da percepção.

É importante entender como é o argentino pra entender porque só eles conseguem protagonizar com tanto entusiasmo e entrega o seu momento com o artista.
It’s only rock and roll, but they like it. Y mucho.

Doismilenove, 23 de Outubro, estádio do Vélez: a sensação pré-show do show do Charly García (debaixo de muita chuva, muita mesmo – e das que molham!) foi, como sempre antes de um show de um artista querido, pré-orgásmica. Ainda mais quando o show do AQ (artista querido) é no dia do aniversário dele. (Charly tem tradição de agendar shows no dia em que faz anos).
A adrenalina antes de um show é meio como a de esperar pra nascer, a gente não sabe bem o que está por experimentar, mas sabemos que promete.
E o mais massa é justamente que num show são muitas pessoas esperando pra nascer ao mesmo tempo, é praticamente um orgasmo coletivo do rock.

E esse show do Charly García foi histórico pra todo mundo, principalmente pro próprio. E dessa vez não foi marcante por brigas na banda, ou porque Charly teve um acesso de fúria, quebrou tudo e mandou o mundo se foder (antes, quando ainda era o Charly que a Argentina conheceu, ele fazia esse tipo de coisa bem seguido): dessa vez foi histórico porque era a primeira vez que se veria ao Lennon argentino cheiroso e limpinho, recém saído de uma longa internação. Tá mais velho. E mais gordo, mais lento. Mais avô, meio tiozão.
Quando o vi no palco percebi que a adolescência do Charly agora sim era parte do passado. Ele está num momento de renascimento, reaprendendo a se entorpecer só pela música, a conseguir por outros meios o estímulo que as drogas lhe davam antes, e Charly não era do tipo que se impunha limites, ele fazia questão de romper todos, mas a idade chega e o corpo pede um recreio do recreio, então ele precisou dar um tempo no que fazia ele ser o Charly, e agora se vê sendo outro Charly, mais delicado e calmo, mais… avô, justamente.

Tocou e cantou lindamente, foi direto e sem rodeios pra passar de uma música a outra, fez uma ou duas piadinhas (ok, eu conto a que eu lembro): como sabem, a chuva não deu trégua o show inteiro, e uma hora Charly joga os braços pra cima, olha pro céu chorão e pede a Deus que por favor pare de cuspir. Com aquele jeitão dele, que só vendo. E eu só via mesmo porque meu querido concubino me levou na garupa mais da metade do show. Um santo. E eu, uma mula: num rompante de inconsequência, resolvi ir de saia e Havaianas. Sim, chinelos de dedo. Na pista. E na pista dos pobres (a Say no More), porque, creiam ou não, sim, Charly pecou: fez o lance da área vip no estádio. Daqui pra lá, é fã rico, e dali pra lá, fã pobre. É feio fazer esses nazismos, mas ele fez, e eu fui mesmo assim porque ele é o cara. Foda foi no dia seguinte, eu conversando com um conhecido que foi de Piano Bar – o nome da área vip, saquem só – e ele me conta que ficou só até a metade do show porque não agüentou a chuva, isso sim é que me dá dó. Dó e algo de ódio também.

Tudo indo às mil maravilhas, todo mundo já tinha cantando o parabénspravocê argentino (pra quem não conhece: “que los cumpla feliz, que los cumpla feliz, que los cumpla ….. e aí ninguém sabia encaixar Charly na letra, foi engraçado), a chuva e o frio estavam consumindo os que não pulavam e, no fundo, como de costume, o povo espera algum convidado especial, alguma aparição do além, algum Ser Maior, alguém que merecesse ser chamado pelo artistaquerido ao palco. E esse alguém desceu dos céus (mentira, entrou caminhando mesmo, eu é que trato de dar um toque celestial às coisas), era ele, o adorado, o sensível, o mago, o amigo, o Flaco, Spinetta. Pânico e loucura na pista, gritos de “Flacoo, flacoo”, cantam “Rezo por Vos” juntos, para o delírio geral da nação.

Não vou tratar de listar música por música, não tenho memória pra isso nem muito menos vou catar no google o set list porque isso vocês mesmos podem fazer. Só digo que a seleção do repertório foi feita cheia de intenção e intensidão (essa palavra ninguém conhecia – nem eu) de fazer todos pularmos feito teletubbies no campinho. Porque, de fato, todos pulamos, e muito. Eu lá, bem confortável na minha personal garupa (achei ótimo que ninguém tenha me gritado barbaridades por eu estar tapando a visão, o povo queria curtir e ver curtir, isso é atitude rock. pô), aquelas ondas de gentes de um lado pro outro, aquele côro constante, a chuva em prantos, todos cantavam cada letra como se fosse o hino nacional. E era rock. Charly. mais um show inesquecível que esta cidade me brinda. Vale contar que Buenos Aires já tem no meu CR – Curriculum Rockae: Stones em 2006, Spinetta em 2007, Dylan em 2008 e agora Charly. Só não digo que já posso morrer porque ainda hei de parir 4 meninos, e eles hão de ser os Elenitols, porque o mundo ainda não curou a saudade dos meninols de Liverpool.

Charly é amante de rock e fala pra todo mundo, e todo mundo entende, sem frescura, sem precisar dizer que é bom. Ele é autêntico e genuinamente forte. Então ele acha que deve falar, cantar e voar suas guitarras e seus dedos no piano. E se não lhe dão bola, ele se joga do nono andar de um hotel, cai na piscina e sai nadando, aí sim vão ver qualé. Hoje em dia não creio que ele se atirasse assim, sem droga fica foda neguinho ter um impulso desses, mas alguma ele aprontaria. Ou não. De repente ele já assumiu o coma do adolescente que morou nele, e concluiu que tão somente com um show inolvidable, se diz muito. Charly conseguiu afinar até a chuva naquela noite.

Ele foi generoso, porque deixou a gente extravasar com ele, e gentil quando pediu amavelmente a Deus que parasse com essa ideia maluca de cuspir no povo ensandecido.
E, como sempre depois do show de um artista querido, nenhuma canção há de soar como antes, cada uma há de me remeter à euforia e a alquimia de charlygarcía.
Hay que envejecer pero sin perder la rockura jamás, nenes.

Novembro 23, 2009

Argentiniser o no argentiniser, esa es la cuestión.

A ver, no entiendo. Me siento perdida y sin una gota de identidad.

Cuando sabe uno si ya está metido hasta la última cana del pelo en el pozo cultural de una sociedad o si todavía le queda aire como para que consiga seguir respirando su instinto de preservación de la especie? No es la primera vez que me agarra una crisis así, pero antes el tema era más por el idioma que otra cosa. Ahora es más grave, tengo la sensación de una desflorada virgen. Es una cuestión de costumbres, onda tribu.

Perdón, hermanos brasileros, pero les debo confesar (y encima la cara dura lo hace en castellano) que me pasé toda la noche anterior…

jugando el truco

Y

tomando Fernet – algo impensable hace unos meses atras, cuando entonces el Fernet tenía un gusto a essencia de Novalgina y no me cabía para nada.

Para llegar a realizar ese tipo de acción, uno no tiene unicamente que ser mayor de edad: tiene que, más que nada, abrir la puerta de su nacionalidad de par en par, porque en el momento exacto en el cual una noche así te llena de alegría, es también el momento exacto en el cual tu brasilidad sale por la ventana, corre y grita:
“-traidora”! Pero a mí no me grites. Sigo mi camino, por las rutas argentinas, rutas argentinas, hasta el fin. (según la letra de Almendra, es hasta el fin).

Con este post – mix de crisis de identidad y de los 30 que ya están por patear la poca sanidad que me queda – puedo concluir que además de hablar y escribir tal cual los porteños lo hacen, también me estoy convirtiendo en un machito que escavia con envidiable resistencia, dice malas palabras y dice “escavio”. Si no en un machito, por lo menos en una mina con muchas bolas (aunque a mi siempre me hayan gustando más los “cojones” que simplemente “bolas” – las bolas también las tenemos en Brasil, pues). Me encantan las malas palabras en cualquier idioma, a decir la verdad.

Y la idea de una noche de Fernet y truco ya me cabe: creo que soy la más nueva hembra alfa afro-braso-argenta.

Novembro 9, 2009

Sol na Lage # 2

Episodio de hoy: Intriga Musical – Estarán hablando del hongo?

Escuchando a la hermosa y jipe canción de Sui Generis, “Tribulaciones, Lamento y Ocaso de un Tonto Rey Imaginario o no” – vaya titulo! Más enroscados que nuestro amigo Caetano Veloso con su clásico “o no…”

Fijense en la letra, donde Charly canta:

Teníamos sol
Vino a granel
Y así pasábamos
Los días
Tomando el té
Riéndonos al fin

sería este un té de hongos?
el contexto me dice que es muy probable que si.

* Capusotto, te vendo la idea del “personaje que habla del hongoooo” si querés.

Después hablamos de la letra de “La ruta del tentempié”, un escrache bárbaro de un loco de extasis. Oh, la juventud…

Conselho de amigo: você é o que você está por comer

Quando a gente sabe que está a ponto de dar um conselho a alguém, sente que por alguns instantes essa pessoa pode ser mais feliz -sim, feliz- através de idéias lançadas, chan! por ti.

O que estou a fazer é puro altruismo (mentira, depois eu faço questão de umas bruschettinhas de brie com beterraba). Pro bem de vocês, eu aviso que a comida jânica será uma experiência tão mágica quanto a de ver uma amiga tão querida encontrando seus temperos e fazendo bom uso de todos eles.
Morei com JanGirardi durante um ano e meio na ensolarada Londres, quando comíamos, incendiávamos e filosofávamos como se não houvesse amanhã (só faltou o Era Uma Vez…)
Lembro das geléias feitas (pela chef em questão) com uvas colhidas do nosso próprio jardim na casinha humilde de gente humilde, quevontadedechorar, ao norte, zona 3 – pânico – de London. Eram orgias gastronômicas, pastinhas verdes de outro mundo, e aquele pão de azeitona que eu tento, mas não consigo imitar. Os sushis comunitários e uma garrafa de tequila em menos de quinze minutos. Ok, não é comida, mas lembrei e me marejei os olhos, éramos como índios dançando em volta da mesinha (mesinha rsrs) de centro.

Por que é mesmo que se diz que a gente é o que come?
Porque se comer direitinho o coucou sai mais cheiroso e evita celulite?
Comer direitinho não serve. Pô.
Bom é comer com todos os sentidos.
Porque comer bem é algo que te alimenta o coração,
através do prazer que é comer, uma necessidade tão básica e, por isso mesmo, tão importante.

E, como diriam os bitols: think. e, de quebra, chegue aos sixty four contente e saudável (até por ali, sei o quão pagãos somos).

E se recomendo essa pessoa e esse lugar, é porque sou testemunha das delícias que Jan pode fazer na alma da gente. Mais que uma amigairmã muito querida, é daquelas pessoas que te fazem acreditar que o tudo o que se bota pra dentro se vê depois, e é no sorriso – que é uma coisa tão importante como, justamente, comer.
Saravá!
cheers, mate!

Que a alquimia te acompanhe sempre, amica!

And in the end
The love you eat
Es equal to the love
you cook
*aqui anuncio a última referência beatlemaníaca deste post

(Fica em Porto Alegre, chau)
http://chefjanaprimeiroandar.blogspot.com/primeiro_andar_010

Novembro 3, 2009

tudo chove – ou não

mas, também!
choveu um fim de semana inteiro
já não chove música nos meus tímpanos porque meu emepetrês estragou
acordei, as gotas na janela: choveram meus olhos e choveu meu coração
visito meu jardim, as pobres flores pelo chão
meu sol na lage choveu e minha pele choveu de ira
agora mesmo, chovem meus dois litros de menstruação
chove em cima da lua – um abuso, visto que ela está cheia (ainda por cima isso)
e ainda vêm me dizer é tudo desculpa
pra chover reclamação

chuá chuá chuá

Outubro 18, 2009

Sol na Lage # 1 (coisas que passam pelo meu sol quando tomo na cabeça)

Episódio de hoje: Papai me contou…
(toda essa sabedoria no primeiro dia de visita do dito cujo aqui na ciudad autónoma)

1. que as medialunas são assim chamadas porque a massa usada tem origem árabe – vide bandeira deste país.

2. que a música “O Mundo é um Moinho”, do Cartola, foi feita pra filha dele. (que fuerte, tíos!)

3. que quando eu era quianssa, bem eleniña, os churrascos ao meio-dia dos meus pais e seus amigos se extendiam até virarem carreteiro à noite, e tudo devidamente regado a caipirinhas, cervejas e afins. Agora tudo faz sentido e essa minha boemia bukowskiniana incorrigível é culpa deles. Respirei aliviada depois dessa.

4. que ele conheceu o Carlos Lyra.

5. que sou que nem a minha mãe e os girassóis: só sou verdadeiramente feliz quando ao sol. Ok, eu já sabia, mas isso dito por ele tem outra vibe.

6. que ele mamou no peito até ter uns 3 anos (ou seja, um marmanjinho). Diziam que mais um pouco e ele dava uma mamada, fazia uma torradinha e voltava pro peito.

7. que a mãe dele (vovó Hortensia) teve 11 abortos, o que faz dele o 12º filho. E é filho único, vejam só.

8. que cervejeiro é cervejeiro sempre, e maconheiro é maconheiro sempre (com aquele jeito dele de quem diz uma grande verdade inconstestável. e quem sou eu pra contestar?)

9. que 9 de Julho foi o dia em que o pai dele (vovô Sady) e o Vinícius de Moraes morreram. E que foi também nesse dia que ele descasou da primeira mulher e casou com a minha mãe.

10. que achou Buenos Aires bem fácil: “ali tu tem a Cabildo, mais pra lá a Libertador, prum lado tá o centro, e pro outro, a província. Simples.”

11. enquanto eu comprava uma lembrancinha religiosa na Iglesia de Nuestra Señora del Pilar pra ele levar pra minha vó Edith – a materna – e concluía que há muitos anos que só dou presentes de origem católica pra ela, ele me larga essa: “é… já tá com oitenta e cinco, é bom ir abençoando mesmo…” Humor negro mode on total, eu não sou sarcástica assim por acaso. Respirei aliviada de novo.

12. que ele costuma reconhecer a nacionalidade das pessoas pelos sapatos. Genius.

Melhor parar por aqui: hoje é domingo, ele volta pra Porto Alegre na quinta-feira e eu já to chorando de saudades, nível: soluço.
E, tomando esse sol na minha lage porteña, só agradeço por minhas lágrimas não serem de limão.

El culpable

El culpable

Outubro 13, 2009

projeto de banda # 1

Arquivado em: listeninglessons — caracoles @ 12:07 am

e se…
ao invés de ressurgir a Seru Giran
criássemos a Seru Mano?

* músicos e manos, tratar aqui.

Outubro 8, 2009

Doce vingança doméstica

* balde, água, clorofina, esponja, luvas, Cif baño (se tiver o “crema”, melhor ainda)

E lá vou eu, balde em punho e figurino de farrapo – como pede a ocasião, munida pra guerra contra os germes, limpar a banheira.

Esfrego, limpo a cortina, faço acrobacias pra, toc toc toc, não quebrar a minha bacia tentando alcançar a última esquina da banheira e ter uma morte tragicamente patética.

Quartos de hora depois, cumprida estava a missão, e eu achando que essa banheira merecia um troco. Mudo o figurino e a munição: sirvo um uísque amigo, acendo a vela e pingo essência perfumada no coisinho aquele. Um jazzinho pra acompanhar, o paraíso agora era a banheira.

Olho meu pé, amaciando o sabonete de forma eroticamente sarcástica, e penso: sim, a vida também é feita de pequenas vinganças.

Elena 1 x Banheira 0

Outubro 7, 2009

argentinices que me fazem cócegas

Chimichurri

A palavra é quase tão engraçada como *Titicaca, não fosse pelo fato que *chimichurri me faz lembrar de Cheech & Chong. Aliás que bela versão platense daria, hã? Ó o insight (!) “Chimi y Churri se encierran en el auto y se ponen a fumar un churrito”. (pra quem não sabe o que é churro/churrito: vide post anterior sobre a despenalização – e esse churro não leva doce de leite na receita).

Chimichurri também pode ser apelido djuguidjugui de namorado/a bilubilumeufofinho/a. Por aí.

* é um molho feito de cebola, pimenta, orégano, pimenta, alho, pimenta, muita pimenta. turista, não se deixe enganar pela amável aparência deste molho, ou chamas queimarão seus brasileiros beiços.
* é um lago entre Bolívia e Peru, seus ignorantes

a Avenida DORREGO.
(eu juro, e é tudo junto mesmo)

Outubro 3, 2009

Abraçando a despenalização, faso a faso.

aguanteladespe” – Passa a bola, Maradona”. Frase recorrente no meu grupetín de amigos argentinos (eles falam a frase em Português mesmo, o que por si só já é realmente engraçado), que quer dizer: “Passa o baseadinho, companheiro, não monopoliza a pelota porque todos querem jogar, se divertir nessa marotagem”.

E por que todos querem jogar? (pra quem não sabe, isto é didática): Porque é bom jogar uma pelada, é agradável descontrair a mente e abrir a gaiola para a criança com asas que vive em nós. É bom desopilar, brincar com outros seres da nossa espécie e viver momentos em equipe, permitir algo de lúdico em nossa rotina robótica de bicho – grilo ou não – de cidade. E, tcharam!, o mais genial de tudo isso é que: sim, é possível se entreter com uma pelada (rs) e chegar a ser um humanus nusconformis, e fazer o que fazem os todas as pessoas honestas costumam fazer em suas rotinas quotidianas do dia-a-dia da rotina diária e quotidiana do dia-a-dia diário rotinero : trabalhar, trazer o leite das crianças, não matar ninguém, não extraviar milhões dos cofres públicos, almoçar domingo com a família, ter complexo de édipo, manter algo de instinto, manter alguns amigos, um amor, enfim. Coisas que não nos fazem ir pra cadeia. E, nas horas vagas, por que não, um futebolzinho, pô.

Com a maconha é assim, por mais boluda e jardimdeinfântica que lhes soe a analogia. E, antes que algum esquentadinho já role com fúria o mouse pra deixar um comentário indignado dizendo que o futebol não pode ser comparado com cannabis porque é esporte e faz bem à saúde, eu afirmo que faz mal à saúde, visto que meu concubino, jogando um partidito inocente, já quase quebrou um dedo num golpe tipo rugby e volta sempre com as costas parecendo um caju e gemendo de dor tal qual um senhor de idade; minha irmã foi goleira no colégio e rompeu os ligamentos do joelho, e tantas outras tragédias que o futebol pode provocar. Fora que, pra quem fuma, é quase impossível correr um campo inteiro sem sentir a morte mais perto pelos breves segundos em que não conseguem inspirar nem expirar nada. Isso de fazer bem é muitíssimo relativo, estimados hermanos. Laboratórios dizem que muita coisa vai te trazer benefícios e a Igreja Universal do Reino de Deus também.

Antes de nos metermos pelo denso rio dos termos jurídicos, é melhor falar de certas coisas. Vamos falar do tema a plenos pulmões, e vamos mesmo, porque não é todo o mundo que sabe o que é isso de puxar fumo, e também pelos que chamam pejorativissimamente os que fumam de “perejiles” (em português: salsinha. esse mesmo, o tempero), e isso me tira do sério, tanta gente achando uma coisa sem saber porque acha e sendo mais brutos que ogros, porque achar não é saber, e a cegueira coletiva me deixa, com o perdão do trocadilho, cega de ódio. Eu sei que muita tia, mãe, ex-colega-do-jardim-que-só-bebe-suco, etc, vai ler isto. E é pra essas pessoas que eu quero contar como funciona essa coisa, que não só não é um bicho de sete cabeças, como mais parece um simpático filhote de labrador, já veremos por que.

Porque, não, você não precisa ficar idiota se fumar um baseado. Muito menos ser um para fazê-lo. Não, você não precisa dormir imediatamente, tampouco. E, finalmente, não: você não precisa gostar.

Mas, se gostar, fique sabendo que você não representa nenhum risco ao seu vizinho por desfrutar da yerba buena. Não, pessoal, eu não fumo e vejo um OVNI se a luz da sinaleira está piscando, não saio peladona no centro da cidade, juro que não me comporto como uma lunática. A maconha é tão inocente que nem sequer me dá coragem pra pegar um ônibus sozinha de madrugada, o que afirma que, vejam só, tampouco me deixa inconseqüente ou tresloucada. Não passei a ver o mundo em technicolor depois do meu primeiro cigarro de maconha (não confundamos as drogas). Não, fumar maconha não se trata disso. “Quero mais!”, que nem o guri propaganda do Tang. Se trata de abrir as portas da percepção, tal qual o Jim, embora este tenha se passado e acabou abrindo o telhado e o chão também. Mas, pra quem nunca experimentou, saibam que, a cannabis, para muitos, funciona como uma lâmpada na mente, que põe a questionar e a desfrutar cada minuto, e o massa é que o minuto de quem fuma costuma ser mais longo (rá!). A maconha não me relaxa porque me relaxa e “ai, que sem graça isso, não entendo como podes gostar disto, me dá sono e me deixa bobo/a” pode dizer a amiga. Eis que eu direi à ela: “Tudo bem que não me entendas, mas que bom que me aceites.” Se a maconha me relaxa é porque me faz refletir – ou viajar, como quiserem – aliás, viajar é um termo ótimo, visto que as viagens proporcionam riqueza de experiências, banho de cultura, renovação da mente e alma, entrosamento com outros seres humanos, e todos nós sabemos que viajar é a segunda melhor coisa que um humano pode fazer. Fumo um e penso, penso muito. Não na velocidade galopante em que sobe o dólar, nem no desastre que foi o time do Maradona jogando com o Brasil sábado passado (inenarrável o prazer de ter assistido o jogo entre argentinos e no país deles, dá licença que este texto é em Português e dá vontade mesmo de rir do Maradona. Meu pai disse que ele parecia uma prostituta velha com a maquiagem borrada rsrs), eu penso e medito sobre o que posso fazer pra ser alguém melhor no mundo, logo: eu penso em mim. Nas minhas relações com outros humanos, na minha vida, I me mine, eueueu, já sei, mas é assim. A gente tem que pensar na gente pramodiagente ser feliz. Simples assim, tá batido mas é: a mudança começa em cada um de nós. Então faça a sua parte e comece a desatar seus próprios nós, porque senão a bagunça fica indecifrável demais. Desatar nós não necessariamente tem a ver com ir à terapia, nem à academia, nem fumar um *canário. Tem a ver com aceitar o outro, o diferente e o semelhante, o próximo da fila, aprender que amor se dá sem julgar. Assim somos nós com o novo, assim somos nós com o desconhecido: “afasto o que não conheço”, diria John Gilbert, e não preciso estar em Sampa pra saber disso. Experimente botar todo mundo pra pensar, e teremos um mundo, não esse lixão no meio da Statusfera. A maconha não faz o que as boletinhas anti-depressivas fazem (estas sim são perigosas, e com elas é que deveríamos nos preocupar), mas vou deixar pros mais interessados que procurem na Internet ou em suas enciclopédias mais info sobre o efeito da erva, ou que fume um e tire a dúvida. Sou mesmo uma safada, eu sei, mas nunca diga “deste cigarro não fumarei”.

Iniciemos, pois, o rafting pelo rio (barbaridade) da sentença que levou a Corte Suprema da Argentina à despenalização da cannabis para consumo próprio: (sim, eu li as oitenta páginas da sentença)

(onde houver um asterisco significa que lá embaixo haverá um glossário de sinônimos para “cigarro de marihuana” em porteñês, vejam que simpático)

Cinco guris caminhando por uma rua de Rosario (interior da Argentina) portando três *porritos. Equações de baseado por cabeça à parte, o que temos é um caso que foi parar na Corte porque, graças a Jah, ainda existe gente sensata até no Poder, que coisa mais adorável.
Queriam condenar os meninos a muito tempo no xadrez. Eis que o iluminado juiz Carlos Fayt parou, pensou (eu tô dizendo que esse negócio de pensar é importante) e disse: mas peraí, companheiros (o companheiros é por minha conta): que mal mesmo pode nos oferecer um usuário de maconha? Precisamos realmente perder tanto tempo com essa gente? Por que não os deixamos em paz e começamos a nos preocupar com o que realmente importa? Elementar meu caro Marley, bastou uma breve análise.

A Argentina é o segundo país em consumo de cannabis da América Latina (o primeiro é o Chile), e olha que o Brasil é grande… Os argentinos são os primeiros em consumo de cocaína, e olha que o Brasil é grande (!). Dá pra notar que o pessoal é chegado numa droguinha nesta terra de Diego Maradroga. Ainda bem que a Corte entendeu que isso dificilmente vai mudar. A jurisprudência mostrou, depois de tantos casos em que houve penalização no caso de consumo não ajudou em nada a diminuir o tráfico nem o consumo, enquanto ambos só aumentam, getting higher and higher.O buraco é mais embaixo, a gente sabe bem.

Estamos na América Latina, isto aqui não é Amsterdam e ainda não posso pedir pra moça do mercadinho “por favor, me vê um Marlboro box e um desses marroquinos que tens aí ao lado dos chiclés”. Mas já é alguma coisa, esta sentença é um baita avanço. Um passo importante não só para os maconheiros, e sim, para a Humanidade. Grande coisa pisar na Lua, diria eu. Sim, eu, porque não é todo mundo que se atreveria a dizer que a despenalização de uma droga tem a ver com evolução da Humanidade. Mas tem, eu juro: a sentença nos diz, indiretamente, que a luz no fim do túnel agora pelo menos pisca. Que essa coisa de punir sem saber porque pune anda com as patas meio curtas.

Na Argentina, até o mês passado, o cidadão tinha que fechar a janela, acender incenso e o caralho a quatro pra poder fumar seu *caño em paz ou para plantar sua kaya, a menos que você tivesse certeza absoluta de que seus vizinhos não o denunciariam.
Pois escancaremos as janelas e venezianas, muchachos! A partir de agora, se o macanudo vizinho não simpatizar com o perfume de seu *fasín, então ele que acenda seu incenso e feche sua janela, porque a partir de agora o fato de ele antipatizar com a maconha é um problema dele, e não seu.

E aqui está o centro da questão, que na realidade foi a origem da sentença de 26 de agosto:

(em espanhol mesmo, vamos fazer uma forcinha, ¡ hermanos !)

“(…) Cabe tener presente que una de las pautas básicas sobre la que se construyó todo el andamiaje institucional que impulsó a la Convención Constituyente de 1994 fue el de incorporar a los tratados internacionales sobre derechos humanos como un orden equiparado a la Constitución Nacional misma (artículo 75, inc. 22). Así la reforma constitucional de 1994 la importancia del sistema internacional protección de los derechos humanos y no se atuvo al principio de soberanía ilimitada de las naciones (considerandos 18 y 19 in re “Mazzeo”, Fallos: 330:3248).”

Sou eu, ou isso é mais bonito que Walt Whitman?

Proteger os direitos humanos ao invés de dar bola pra soberania do Estado? É poesia.

Li isso, me senti contente pelos humanos e seus direitos respeitados. Tipo, ainda se pensa em direitos humanos, wow! E é dessa luz no fim do túnel que eu falo, ela pisca e nos avisa que, ainda podemos esperar, dias melhores virão.

A sentença diz também que o fato de o vivente fumar não afeta a pretendida saúde pública. Bingo! Goste você ou não de um baseado, fato é que não oferecemos risco e o que a pessoa faz dentro da sua própria casa é assunto seu e só seu. O pior risco que podemos oferecer é perder as chaves de casa, rir às pampas, tossir no bus e gerar conversaçoes filosóficas. Not bad, hã. Mas tem gente que não gosta de ver ninguém rindo nem pensando muito e que acha que perder chaves é um absurdo. Então preferem chamar a gente de perejil. Tomo como elogio, já que é um tempero, e o que seria da vida afinal se não fosse um temperinho? Só me resta mesmo ver aos reacionários como personagens de um filme de terror brasileiro: é tão tosco que vira comédia. Aqui está clara a minha indignação para com essa gente que só diz que não, que não se pode e que não se deve. Não cabe a ninguém julgar a pessoa que fuma um *churro simplesmente porque lhe apetece fazê-lo. Eu fumo, gosto e escrevo, e esse é o problema: os que gostam das letras acham que podem mudar o mundo com elas, mas paciência, foi o que me tocou, já que nao sei tocar violão nem cantar bonito.

Mais um belo poema retirado da sentença:

Con relación a tal derecho y su vinculación con el principio de “autonomía personal”, a nivel interamericano se ha señalado que “el desenvolvimiento del ser humano no queda sujeto a las iniciativas y cuidados del poder público. Bajo una perspectiva general, aquél posee, retiene y desarrolla, en términos más o menos amplios, la capacidad de conducir su vida, resolver sobre la mejor forma de hacerlo, valerse de medios e instrumentos para este fin, seleccionados y utilizados con autonomía —que es prenda de madurez y condición de libertad e incluso resistir o rechazar en forma legítima la injerencia indebida y las agresiones que se le dirigen. Esto exalta la idea de autonomía y desecha tentaciones opresoras, que pudieran ocultarse bajo un supuesto afán de beneficiar al sujeto, ocultarse bajo un supuesto afán de beneficiar al sujeto, establecer su conveniencia y anticipar o iluminar (!!) sus decisiones. (CIDH en el caso Ximenes Lopes vs. Brasil (!!!!!!), del 4 de julio de 2006, parágrafo 10 del voto del Juez Sergio García Ramírez).”

Nao é incrível?!

Outro dado que sinaliza: fizeram uma análise comparativa de 2001 a 2005 que mostra que houve um aumento de 100% das mulheres no consumo da erva contra 50% de homens. Por favor, não vão pensar que sou uma feminista ferrenha nem nada, mas pra mim isto é um sinal de mudança tipo The Times They Are A Changing: muitas mulheres que antes só fumavam tabaco, porque maconha era coisa de homem, de hippie louco, mendigo e sujo, hoje também querem fumar um e jogar bola.

Tá longo o texto, eu sei. Mas se a Corte, que está composta de 99% de pessoas que não fumam, pode escrever 80 páginas falando do tema, eu que tenho o tema presente na minha vida me dou o direito a ultrapassar os 5000 toques que me pediram e, eu escrevo tudo até a última ponta.

E baaaasta de trocadilhos infames.

Cancherário: (a próxima vez que visitares a Argentina já vais estar canchero hablando del faso)
· porro (aqui nao tem no feminino, nem adianta querer tirar sarro)
· faso
· fasín – derivado de faso
· churro (!) eu sabia que o Chaves era chegado
· caño
· canário – derivado de caño
· finito (no caso de ser fino, justamente)
· cigarrillo de marihuana (o mais ousado)

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