O cagaço mais gostoso

18 fev
 
Sem essa de crise dos trinta.
 
Paremos de justificar tudo com crises, sugiro que demos os nomes aos bois (no caso, a este pobre boi velho de trinta anos com meia perna pra dentro do caixão)
 
E o nome do boi é Cagaço.
 
Fazer 30 é como fazer 28 ou 29, com o sutil e apavorante detalhe da troca de década. E isso, dizem, nos afeta psicologicamente.
 
Bate um cagaço no vivente nao só porque lhe restam menos anos de vida, até porque com 30 hoje em dia, se é bem novinho e há toda uma vida pela frente.
O drama não é bem esse, o dos anos que estão por vir. É dos anos que se foram, que comeram a nossa poeira, que hoje é poeira envelhecida e tem até gosto de Jack Daniels ou de algo que o valha.
 
É a coleção de lembranças, vivências, traumas, aprendizados e tudo o que vocês quiserem, é a mochila.
Mas, basicamente, é a coleção de cagadas que fizemos. Ninguém se angustia antes de fazer 30 se nao tiver feito nenhuma cagada na vida. Logo, conclui-se que todo mundo se caga na hora dessa virada, porque nao há vida possível sem cagada.
 
Ok, as coisas boas e as dentros que demos também estão lá, na mochila, mas ninguém se angustia por coisas maravilhosas, ninguém tem cagaço por isso. No máximo, um orgulho engrandecido e uma auto-estima melhorada, mas nada além de um upgrade de amor próprio, e não, isto não entra na tal crise.
 
Mas (e agora, por que não, assumindo que talvez seja mesmo uma crise, já que sou bem chegada numa contradição) os erros, aqueles que tanto nos ensinam e nos empurram – pra cima ou pra baixo, aí vai depender das ganas de viver de cada um – eles são os presentes de grego que levamos conosco.
Por quê?
Porque provavelmente eles continuarao nos dando a mão durante a nossa jornada.
 
Um exemplo real, super real:
 
Astrolgildo vai ao shopping todos os dias por causa do ar condicionado, que inexiste em seu lar, e o calor dos trópicos o está matando aos poucos.
Volta e meia, Astrogildo se destrai, pois tem uma mania bobíssima de olhar o chão enquanto caminha. Na distração, Astrogildo acaba se dando conta, lá pelo quinto degrau (bem, ele é meio bêbado, além de bobíssimo), de que está tratando de subir por uma escada rolante que desce.
Se até agora Astrolgildo não aprendeu que olhando pra baixo ele não vê o que está na sua cara, e que subindo onde é pra descer não vai levá-lo a lugar algum que não seja a enfermaria do shopping, não é porque mudou a década que ele vai aprender.
 
E o mesmo vai acontecer quando ele fizer 40. Ele vai se dar conta de que putz. Não aprendi de novo.
 
Ainda.
 
Não aprendeu pra sempre.
 
 
E a vinda dessa década tão entrincada só faz reforçar em nossas mentes a nossa capacidade de não aprender certas coisas.
Fazer trinta se trata disso: de continuar não aprendendo, mas com mais classe, com mais pose de adulto e com os pontos fortes também reforçados, é uma reforçação de coisas que não tem mais fim.
 
Mas tem o lado Edith Piaf e Frank Sinatra da história, que é quando cantamos Non, Je ne regrette rien, ou então I did it my way. É aquele orgulho e até um certo carinho por cada inconseqüência, cada cagadinha, cada bobagem que fizemos, e pelas que hemos de seguir fazendo, porque elas são o que somos: esse monte de panos sujos, porém coloridinhos.
 
Não, os trinta não me pegaram desprevenida. Me pegaram despavitada.
Ainda bem que me surgiram essas duas micro rugas e esses quatro fios brancos na cabeça, porque não: eu não aparento ter trinta nem a pau, estou cada vez mais tetéia style. E porra. Eu mereço um crédito extra por fazer 30, eu exijo respeito.
 
Nos trinta, ou o sujeito se apavora de vez, ou liga o foda-se e vai ser feliz. E eu, que, já é sabido, não nasci ontem, optei pela segunda e sábia opção. Já não me preocupo em usar óculos escuros se não tiver colírio. O mundo que veja meus olhos vermelhos e pare com essa frescura.
 
E é pra lá de ótimo andar e cagar pra um monte de coisas. É inspirador quando as coisas não saem como o planejado, porque Oba!, eu não planejei nada mesmo. 
Hoje entendo que a minha maior malandragem é tirar proveito só de mim mesma.
E talvez amadurecer trate-se de habitualmente botar tudo na peneira do nosso penso, e saber fazê-lo é como vacinar-se. É aceitar que nossa intuição sempre tem algo a intuir e nossos sentidos, algo a sentir. Mas nossos planos não tem nada pra planejar, eles simplesmente são uma mentira, porque afinal de contas, é sempre o vento quem há de encarregar-se de nos levar seja pra onde for e com quem for.
 
E que graça teria contar os anos vividos se isso não tivesse um lado trágico?
É como se viesse a Adolescência, com sua bundinha empinadam, mamilos alertas e cara redonda, típicos dos Quinze, nos desse um tapa na cara e batesse a porta com força, levando alguma mochilas e dando tchau enquanto masca um chiclete. Aí é claro, a pobre Adultez fica lá, desolada e tonta feito uma barata envenenada, sem entender patavinas do que se passa, e pensa: “Bom, agora eu sigo. Assim, confusa, madura e esperta, mas sempre boba enfim, graças a Jah.
 
Ainda bem que as manhãs são boas amigas das balzaquianas e nos recebem com tanto Sim pro dia que temos à frente – parece até que estão, desde já, preparando-nos para quando formos velhinhas, elas que, invariavelmente, acordam cedo todos os dias. E a elas as manhãs também sorriem. Não é por nada que muitas delas são nossas avós, pessoas tão valentes, jararacas (sim), sábias e doces. É isso o que as manhãs que beiram e ocupam os trinta tratam de nos injetar em generosas doses diárias: valentia, jararaquice, sabedoria e doçura.
 
E, claro, aquela sensação de ser como as coisas boas da vida: as viagens, o sexo, o whisky e o vinho: todos ficamos melhor com o tempo. Damos mais barato nas pessoas e curtimos a delícia de caetanear o que quer que seja.
Um brinde à essa sensação de não ter que ser melhor do que ninguém, e sentir-se sempre melhor que ontem.
 
  
Música pra ouvir o post: “What’s uh the deal”, do Flóidi.
“Cause there’s a chill wind blowing in my soul
And I think I’m growing old”
 
* Tinha pensado na Piaf ou no Sinatra, mas vou deixar pra quando chegarem os 64 – se bem que nesse vídeo o Gilmour não está lá muito jovem…
Acontece.

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2 Respostas para “O cagaço mais gostoso”

  1. Lucio Louce fevereiro 18, 2010 às 7:44 pm #

    pô, trinta anos hoje em dia é o que ontem foi a hora do médico cortar o teu cordão umbilical.

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